Textos Eterna Presença para editar
Alianças
É noite.
Fora e dentro de mim é noite escura.
Estou só.
O escuro me envolve, me acompanha e
divide comigo esta cama.
Não basta este convívio, esta aliança.
A noite me contém, me detém
e me encontro nela.
Uma sombra e outra sombra.
Assombrações pairam no quarto.
Solidão de duas sombras
que se tocam,
se contemplam e se fundem -
solitárias.
Se faz do meu o seu caminho
por que não vem para ficar?
Se sentes a falta da minha presença
por que não pedes para que eu venha?
Se tem tanta disponibilidade
por que não dá na louca e me procura?
Se sabe que as lembranças
nunca se apagarão em nossas cabeças,
por que finge indiferença?
Quero ser dona do meu tempo,
sonho de novo com liberdades.
Quero sua inexperiente experiência.
Não me cobres tanto ...
Nessa sua cobrança as atitudes são forçadas,
espremidas contra a parede,
tentando alguma escapatória
e estou amarrada.
Num ímpeto, haverá uma brecha.
Então, será que ainda teremos tempo?
Olhando a lua no céu,
com uma pequenina estrela ao seu lado,
senti que realmente me falta uma coisa a mais,
para poder me juntar àquilo que me parte em duas,
para unir novamente em partes totais.
Olhando a lua no céu,
penso que brilha e está só;
brilha agora ao meu redor e também estou só.
Meu coração acelera
à medida que a luz me ilumina.
Me dá vontade de viver para reviver
nossa pequena vidinha, que é infinita de recordações.
Olhe também a lua no céu,
seja aonde quer você esteja agora.
O brilho é o mesmo.
Se senti-la diferente,
pode ser que eu a descrevo com maior paixão.
Você, mero observador,
se quiser, poderá sentir tudo da mesma maneira que descrevo:
é só relaxar, fechar os olhos e deixar suas lembranças bem soltas,
fluírem naturalmente. Assim, você sentirá a ela e a mim e estaremos juntos.
A lua servirá como um elo de aproximação que unirá nossas cabeças,
nossas lembranças, nossos corações.
“Eu te amo, te idolatro e te venero,
numa perplexidade de criança.”
(Vinícius de Morais)
Queria contar com você
estando constantemente por perto.
Preciso que escute a última ideia louca
que me surgiu na cabeça, depois de tantas outras...
Que seja meu espelho mais perfeito
mostrando-me por inteira
com acertos e erros,
alertando-me a tudo.
Que divida o calor do sol
num dia de chuva
e aponta-me aquela nossa estrela
numa noite sem luar.
Queria tê-lo por perto
para me receber de braços abertos
e dar o abraço mais forte
que dois braços podem dar.
Se estivesse aqui, agora,
te olharia firme
nesses olhinhos de águia
e diria o quanto preciso
de você por perto.
Sempre que puder
interrompa meu sono,
seja personagem em meus sonhos,
me faça sonhar acordada.
Há ocasiões
em que meu coração bate tanto
que me impede de ouvir um outro som.
E sempre que me lembro de você
ele fica assim.
Existem mil vozes dentro de mim
que clamam para que ele silencie,
vozes que me deixam conflitantes,
que me perguntam o porque
das minhas barreiras e defesas
estarem tão abertas.
Se eu pudesse,
entraria em seus sonhos
e também, sonharíamos acordados.
Este ainda não é o seu presente
do Dia dos Namorados.
É somente uma forma
de te explicar onde irá encontrá-lo.
Hoje é um dia especial
para pessoas especiais.
Por isso à noite,
quando aparecerem as primeiras estrelas,
corra para fora de onde estiver e olhe para cima, para o céu.
Verá uma lua imensa, linda,
tão grande, tão brilhante,
que só poderia te dar
numa noite como a de hoje.
Deu trabalho colocá-la lá em cima,
mas acho que valeu à pena.
Várias pessoas irão admirá-la,
mas só você terá a satisfação de sentir
que ela está lá no céu sob encomenda, só para você.
Esta foi a maneira que encontrei
para te fazer uma surpresa e ter
nossos pensamentos e emoções unidos
nesta noite em que não poderá estar comigo.
Te quero presente tanto quanto posso,
dentro das limitações dessa relação
e desse momento de vida,
dentro das minhas próprias limitações
e dos meus fechamentos.
Te quero, somente.
Que aquela primeira noite
sobreviva em cada um de nós.
Que todo dia seja como o primeiro,
os sorrisos eternos e que essa felicidade
perdure à cada reencontro reconfortante.
Que sejamos simples de coração,
para procurarmos a saída
de nossos problemas.
E que essa saída
nos transporte de novo,
para aquela noite linda ...
Onde havia uma pequenina estrela
que nos observava suspensa,
lá no céu.
Egocentrismo
Não me interessa um mundo exterior que,
à cada vez que tento entrar,
me joga prá fora.
Assim, não me interessam também
os problemas das pessoas desse mundo.
O que me interessa, agora,
é descobrir o que é bom para mim
e o que me faz sentir bem e feliz.
Às vezes, me é compensador
ter um fim de semana sozinha
para ter tempo suficiente
de pensar em você.
Cada desgosto que tenho
a sua imagem me aparece
como um flash em minha cabeça.
Isso me ajuda a suavizar um pouco
a indiferença e rejeição
com que venho sendo tratada.
Você também não é nenhum santo,
nem estou tentando te colocar
num lugar de honra.
Mas por sua simplicidade,
os seus defeitos e limitações assumidos,
e suas vontades ditas e vividas,
me dá uma certa injeção de ânimo.
Não sei onde você está agora,
nem imagino o que possa estar fazendo.
Só queria que, aonde estivesse,
pensasse em mim nesse momento
com a mesma saudade e carinho
que tenho por você.
Calorzinho
Vejo mais um dia
pouco a pouco entardecendo.
Na luminosidade desta tarde
fixo os olhos do homem que adoro
e sinto o quanto me custa
te olhar no rosto.
Esse homem que me encara
com seus olhinhos de águia,
lê meus pensamentos,
me revira do avesso
e me deixa toda sem graça.
Com ele eu tenho, de fato,
uma velha intimidade
pois quando fico sozinha,
é a sua imagem que vem me socorrer.
Quando ele some, me desespero.
Chamo seu nome, faço poemas,
seguro as lágrimas,
peço em pensamento que me ligue.
Então, de tanto querer,
me arranca desse devaneio
e transmite o calor de suas mãos
para o meu rosto,
que não esfria tão cedo,
mesmo quando já me encontro sozinha
num canto qualquer do meu mundo.
Algumas Certezas
Acredito que minha vida
não é um mero acaso
nem uma aberração da natureza.
Se eu ainda estou aqui
é porque sei lutar por aquilo que quero,
porque tenho valores e qualidades.
Nem que as pessoas queiram
me provar o contrário,
acredito imensamente no meu potencial.
Não tenho feito outra coisa
nesses anos todos
a não ser lutar, lutar ...
Brigo por um lugar ao sol,
por um chão para pisar,
por um lugar num coração,
um cantinho para amar.
Acredito que existam pessoas sinceras
(poucas, é verdade),
e que tudo daria para tê-las
sempre perto de mim.
Essa hipocrisia que me cerca
me incomoda demais,
e tenho feito de tudo para afastá-la.
Acredito que enquanto o tempo
vai cravando sua passagem
pela minha vida,
a distância fica sendo
como um elo na corrente de saudades.
Acredito no sonho,
como uma forma de vida,
como um prolongamento
de uma grande felicidade.
O sonho faz parte da minha vida
assim como a realidade
é a morte da fantasia.
Creio na existência de um grande amor.
Um amor puro, desinteressado,
sem preconceitos nem moral.
Um amor tão intenso
que ultrapasse barreiras de tempo e lugar.
Por isso,
acredito que ainda viverei o dia
de me ver frente a frente,
qual a um espelho,
com alguém tão especial
que também creia em tudo isso.
Assim como eu.
O Ciclo dos Sete
São sete anos de coincidências,
acasos e previsões.
Conhecemo-nos há sete anos,
tenho sete anos de saudade e distância,
e há sete anos eu era bem mais feliz.
Há sete anos,
dei um basta em tudo,
derrubei preconceitos, diferença de idade,
virei minha vida de ponta-cabeça,
e consegui ficar de pé novamente.
Nesses sete anos corridos,
muita coisa boa me aconteceu.
Conheci sete “Josés”,
amei sete Josés,
mas em sete anos,
continuo pensando somente em um.
Há sete anos
eu era oprimida,
angustiada e ociosa,
assim, como agora.
Só que nesse tempo,
eu tinha sete anos a menos
e a força de vontade de sete mulheres.
Por isso, lutei, gritei,
consegui ser eu mesma.
e ter um lugar que fosse só meu.
Hoje, passados sete anos,
minha vida, ao invés de renovar,
apenas repetiu-se
com pequenas alterações.
Quem sabe me enganei
na escolha do “José”?
E tudo está novamente,
caminhando para aquele filme ruim,
de quinta categoria, que já vivi.
Não quero ver esse tipo de filme,
de novo.
Já o conheço de trás prá frente
e sei que não vale à pena,
a platéia é medíocre para mim.
Antes do filme começar,
desta vez,
levanto-me e vou embora.
The End.
Trégua
Meu sagrado coração de ninguém
já não suporta mais
teu relativo silêncio.
Recusa definitivamente
os becos, as camas,
os corpos, o doce veneno
dos meus amores servis.
Meu atrapalho coração se redime,
pede trégua,
abomina todas as esperas
e te declara
seu legítimo escravo e possuidor.
Fuga
Antes que eu te faça
minha verdade primeira,
que invada meu exílio
e te transforme no meu
motivo maior...
Antes que penetre no meu coração
e faça dele sua morada constante;
que sufoque meu silêncio
e nutra meu lado triste de ilusões...
Antes que eu me encontre em você
e me perca nos fluxos dos seus instantes,
que atinja meus limites e que eu faça de ti
meu complemento...
Antes que você se transforme
na resposta aos meus apelos,
que o inesperado aconteça
e eu, sem mistérios, me entregue...
Prefiro fugir
pelo caminho da solidão
do que me expor
a mais uma grande mentira.
Uma expectativa de tantos anos, alimentada dia a dia, tombo a tombo, da saudade ao esquecimento, foi tudo em vão. A gente vai vivendo o dia a dia, deixando o tempo seguir naturalmente sem pressa, e vai aprendendo a vivê-lo.
Quando ainda estávamos juntos, numa tarde descontraída, ficamos pensando aonde estaríamos 5 anos mais tarde deste dia, o que estaríamos fazendo e se ainda seríamos os mesmos.
Resolvemos então fazer um pacto, um juramento: no dia 3 de março de mil novecentos e tal, às 10:00 horas, no centro da cidade iríamos nos encontrar. Acontecesse o que fosse, teríamos que cumprir este juramento, salvo doença ou morte.
Eu sonhei dias e noites infindáveis com esse encontro. Pensava em todas as possibilidades, hipóteses, artimanhas, estratégias, que poderiam acontecer. Passei anos a fio ensaiando palavras, poses e gestos, confeccionando na minha cabeça a roupa mais linda que eu iria usar.
Chegou então o “dia D”. Faltavam apenas horas, para quem pôde aguardar anos ...
Tentei, nesse entremeio, contatos de várias formas. Geralmente, fui bem recebida com exagerada gentileza e cordialidade, o que me cheirava a algo de falso.
Fiz, por muitas vezes, papel de idiota, me deixei ser enganada por promessas e entrava na conversa igual trouxa.
Cansei de ficar sozinha em restaurantes famosos e perigosamente populares, em companhia de garçons, por causa de “mal-entendidos”.
Aí, chegou o dia. Passei a noite anterior com insônia, no maior conflito se deveria ir ou não. E decidi que para o meu bem , da minha moral e dignidade, que eu não iria passar por mais esta espera em vão.
Primeiro, tive medo de ficar mais uma vez esperando por alguém que não viria e isso eu não me perdoaria mais.
Depois, mesmo que estivesse lá, seria a mesma pessoa com quem fiz um juramento? E eu, também sou a mesma?
Esta decisão não pesou a influência de ninguém, não fui por mim mesma. E acho que agi certo, porque sei agora que teria sido mais um grande fracasso.
Este encontro foi marcado com uma pessoa de quem gostei muito, acho que até cheguei a amar e não sabia. E não quis desmoronar os castelos de sonhos erguidos nas noites de insônia e nos momentos de solidão. Meu medo é que ele seja hoje, uma pessoa desconhecida para mim.
A saudade continua gostosa, presente, necessária dentro de nós, como se ainda fôssemos independentes e irresponsáveis de tudo e de todos.
Acho que assim deve permanecer e vai continuar a ser sempre para mim.
Fecho os olhos.
Vejo-o mesmo sem ver,
adivinho-o em toda parte.
Esse fantasma
já não possui mais meu corpo
há muito tempo,
mas é senhor da minha alma e do meu desejo.
A saudade que sai,
voa solta com o vento,
brilha no clarão do luar
e volta mais triste ainda, latejando,
para alojar-se dentro de mim.
Passo a maior parte do tempo
sorvendo poemas e músicas,
tentando achar uma comunhão,
uma cumplicidade.
Miro-me mais do que o costume,
enfeito-me,
como se a qualquer momento
ele viesse me surpreender e ficar.
Esse é o meu pior castigo:
carregar uma dor tão profunda
que talvez esteja se despedindo
ou talvez, me destruindo.
O dia me apresenta
pequenas contrariedades.
Talvez tenha que fazer alguma coisa
que não estava programada,
escutar alguns papos chatos
e escolher programas errados.
Este dia de hoje
está muito cansativo,
em que meu esforço
parece não dar em nada,
passo o tempo todo
resolvendo pequenos problemas.
Para combater a monotonia
entro no espírito do dia:
reclamo um pouco da vida,
blasfemo em voz alta,
critico pessoas,
assim, solto minhas bruxas...
Passei o dia
conversando com meus fantasmas
e resolvi enfrentar todos eles.
É difícil manter a razão
quando se quer varrer,
quando se quer apagar
as lembranças doídas.
E hoje, o meu dia está sem razão de ser.
Estabeleci um prazo,
demarquei um tempo
para te encontrar de novo.
Está difícil esperar pelo inverno,
estou contando os dias ...
Fico tentando perceber
se as folhas secas já caem das árvores,
se o ar da manhã está mais frio
ou se os dias estão mais azuis.
Só aí saberei que está na hora.
Passo os dias me policiando
para não falar seu nome em vão.
Fico às vezes,
inventando encontros imaginários
para tentar aplacar minha impaciência
e cumprir minha promessa.
Hoje acordei louca de vontade de te ver.
Quase fiz isso
mas consegui me conter.
Não quero pressões
com uma aparição repentina,
que possa ser bem vinda ou não.
Te prometi
ser paciente e estou tentando cumprir isso.
Estou indecisa de te procurar
e não quero correr o risco.
Por isso,
vou dormir pensando
que amanhã será um novo dia
e que hoje
foi um dia a menos de espera.
Vivo me iludindo
que o tempo está correndo
e eu finjo não perceber.
O pior,
é que a expectativa vai crescendo
e o medo de uma decepção aumenta.
Mas não quero nem pensar nisso.
Se a noite é de lua cheia,
um ar morno sopra seus pensamentos
e você está sozinho na Praça do Papa ...
Se quando vai tomar o seu chopinho
e o garçom te pergunta
se não vai querer também “cebolinha” ...
Se, apesar do som do carro estar quebrado,
você escutar o Alan Parsons no seu quarto,
olhando para o teto ...
Se, quando for ao Retiro
assentar-se nas pedras da igrejinha,
olhando aquele mundão à sua frente ...
Se, no Pizzaiolo,
alguém pedir uma pizza
meia à moda, meia de frango ...
Se te falarem que
“É fácil parar de fumar” ...
Se, no Brook’s
pedir um “filé com batata Prussiana”
e o garçom perguntar
se quer sobremesa...
Se, acabou de comer uma Nhá Benta
e pára num sinal
da rua Professor Morais com Getúlio Vargas,
num sábado à noite ...
Se a Gal cantar
“Chuva de Prata” ...
O que será que passaria pela sua cabeça
nesses momentos?
Retiro
Queria estar no Retiro das Pedras, hoje, em especial. Que dia de inverno maravilhoso! E é lá o lugar que mais me sinto bem num dia como o de hoje e da maneira como me sinto agora.
Queria estar assentada no topo daquela pedra atrás da igrejinha, ver o mundo de cima como se fosse o Pequeno Príncipe no topo do seu mundinho, mas senhor de tudo e de todos.
As grandes decisões e emoções da minha vida foram tomadas, ou pelo menos pensadas lá. Quem sabe estou sentindo falta do meu habitat natural, para resolver o rumo a dar na minha vida?
... O vento frio tocando no meu rosto, deixando todas as idéias voarem livres por cima das montanhas. Posso dizer o que quero, gritar nomes de pessoas ou xingar à vontade, não importa. Neste momento, este pedacinho do mundo é meu.
Queria, num passe de mágica, transformar-me numa bruxa, jogar tudo prá cima e desfazer os erros. Não sobrariam nem vestígios. Queria ser a melhor doceira, cobrir o mundo todo de marshmellow. Já pensou que engraçadas ficariam aquelas pessoas que não entendem nada, com cara de bunda, todas lambrecadas, sentindo asco ... E eu, deliciando de prazer com esta cena. É, só minhas loucuras mesmo...
Ponte
As coisas ditas ficam martelando o dia inteiro na minha cabeça. Parece um disco velho, arranhado, que a agulha empenada parou em cima da mesma frase.
Quero arregaçar as mangas e batalhar todas as coisas conscientemente, sem romantismo exagerado. Vou começar aos poucos, para a mudança não ser radical nem muito notada.
Descobri que a pessoa que eu era, aquela antiga, dava mais Ibope do que esta em que me tornei. Hoje não dou ibope prá ninguém, nem para os mais chegados. Percebo agora que você está meio assustado e querendo tirar o corpo fora, arrependido pois não esperava uma reação tão imediata e decidida. Eu também exagerei um pouco ...
Sou assim mesmo: não deixo nada para fazer depois se estou querendo aquilo agora. Pego, falo, faço.
E agora é o momento ideal de começar a pensar no que fazer. Você, como o seu antecessor, só servirá como uma ponte, por onde eu passarei e seguirei o meu caminho.
Reveillon
Numa noite, na janela da sala do meu apartamento, jurei para mim mesma nunca mais me encontrar num estado de abandono e solidão como me sentia nesta noite, em especial.
A cidade inteira soltava fogos de felicidade, comemorando o Reveillon. Passei a noite só na janela, apenas como uma espectadora da alegria dos outros.
Os anos se passaram e também passaram muitas pessoas na minha vida. A solidão simplesmente trocava de roupa e de rosto, mas continuava a ser aquela mesma de sempre, velha conhecida ... Teve vários nomes: João, José, Pedro ... E cada novo visitante que chegava, me trazia na bagagem a esperança de que a solidão iria embora.
Com o amadurecimento, juntamente com os tombos, percebo que sempre serei uma pessoa solitária e eu própria é que terei que camuflá-la para poder viver “bem”.
Sinto-a pesando sobre mim numa simples música, em especial. Abafei o meu romantismo, minha sensibilidade e alegria.
Será que vai ser sempre assim, independentemente do que pense, sinta, sofra ou faça?
Decifrando nas Entrelinhas
A ansiedade aumentava toda vez que eu olhava o relógio, me dava uma tremedeira só de pensar que faltavam cinco minutos. Desta vez, alguma coisa lá no fundo me dizia que você não ia furar dessa vez.
Fui ao toalete, dei os últimos retoques, ajeitei o batom e o cabelo, respirei fundo e fui para o salão do restaurante.
Chegamos ao mesmo momento, apenas diferença de segundos ... Ambos sem graça, tentando aparentar uma naturalidade que não tínhamos, estávamos bem nervosos. Senão, por que o seu copo de chope estava tremendo?
Enquanto me falava sobre atualidades, vida familiar e profissional, eu te analisava com aquele olho clínico de quem te conhece muito bem. E vi que na sua vida, já não há mais espaço para mim. Tentei decifrar nas entrelinhas alguma frase, alguma palavra que reacendesse um calorzinho dentro de mim. Mas não houve isso. O que houve foi o reencontro de duas pessoas que se amaram muito e que tomaram rumos diferentes na vida. Mas a saudade, o carinho, a ternura, aquele lugarzinho especial na lembrança continuam.
Senti isso naquele nosso abraço de despedida. Um abraço gostoso, demorado, apertado, que tantas coisas nos disse.
Tchau, meu garoto! Espero que você encontre o caminho que você tanto procura. Você merece isso.
Vinhos e Velas
Que bom que tenha gostado da carta, dos papéis e dos poemas. Aliás, eu tinha certeza que você iria identificar-se bem ... Não poderia imaginar que você ainda tinha guardados todos os papéis antigos, principalmente o porta-retratos. Fiquei tão alegre, porque demonstrou um carinho muito grande por mim.
Estou me lembrando de tantas coisas ... Aquela festa no apartamento, onde haviam mil pessoas e nós dançávamos a música “Time”, do Alan Parsons, como se não houvesse ninguém lá, naquele momento. Aquelas latinhas de vinho foram tão bem vindas ...
Os jantares à luz de velas na varanda, com apenas a lua no céu nos espionando ... Jantares como aqueles, tão especiais e românticos, nunca mais. E os sinais luminosos, que mesmo depois de passarem do vermelho para o verde, continuávamos no mesmo lugar e as pessoas buzinando? Pois é, são tantas recordações que só fazem bem em reviver, rir e sentir saudade.
“O passado, as coisas antigas não são só para serem lembradas com saudade. Podem, e devem ser revividas, a partir do momento que a gente está a fim”.
Foi assim mesmo que você me disse um dia? Some não, hein, Magrelo!
Sexto Sentido
Quando sinto sua falta, sinto também uma saudade gostosa, doída e triste.
E ando pelas ruas, praças e avenidas no meu cotidiano, mas sempre tentando te achar numa loja, num restaurante, num domingo à tarde ensolarado, quem sabe?
Talvez esteja naqueles dias em que o meu sexto sentido me mande sair de casa para nada, sem nenhum motivo, e de repente dê de cara com você.
E foi assim que eu te vi pela última vez. Sem querer, ou por curiosidade, olhei para o carro parado ao lado, no sinal luminoso. Tomei um susto, porque era você.
Cumprimentamo-nos com os olhos, não dissemos nada, perguntamos, cobramos explicações só com os olhos e por uma fração de segundos.
Não tive ideia nem tempo de dizer nada, só via os seus olhinhos de águia fixos, grudados nos meus.
Quando fui tentar dizer qualquer coisa que me viesse primeiro à cabeça, o sinal abriu.
Me mandou um sorriso meio amarelo, me deu um aceno com a mão, acelerou com imprudência e foi embora.
E eu fiquei igual idiota, parada ali, naquele mesmo lugar, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
Mariana
Decidi dar uma sacudida na minha vidinha sem graça. Arrumei as malas e fui viajar. Pareço uma criança que espera ansiosamente por um presente, dado por mim mesma. Pareço outra pessoa: estou solta, alegre, livre.
Resolvo dar uma parada numa cidade qualquer do caminho. Parei numa que me atraiu, por ser exótica e simples ao mesmo tempo. Confesso que quis pensar em você desde que saí de casa, mas decidi largar tudo para traz e afastei depressa essa ideia da cabeça.
A vida simples das pessoas me cativou. Até as moscas parecem que tem preguiça de incomodar a gente.
Daquela varanda privilegiada, onde um horizonte maravilhoso estampava-se a minha frente, a saudade ainda quis bater de novo, mas ainda não era a hora. Queria mais um tempo para ficar só comigo mesma e colocar as idéias no lugar.
Chegou então a noite. Nunca vi uma lua tão imensa, que aparecia serenamente atrás das montanhas, parecendo uma bola de prata.
Saí à toa pela cidade. Eu era uma pessoa desconhecida, portanto ninguém me parou para conversar.
No coreto da praça uma banda tocava modinhas antigas, casais de namorados passeavam comportadamente pelos jardins. Fiquei por ali mesmo para poder escutar.
Comecei a sentir uma coisa ruim ... Eu ali, sozinha, com aquela “luona” no céu, minha cabeça querendo pensar em você e eu não deixando.
De repente, começaram a tocar “Chuva de Prata” e foi como se alguém tivesse me jogado um balde de água gelada para poder acordar. Ah! Que momento mais surpreendente e bonito ... Então, não deu mais para te tirar da cabeça pelo resto da noite.
Fui dormir com uma sensação de vazio, por saber que não posso contar mais com você por perto. Dói muito em mim essa derrota, dá um gosto ruim na boca.
Voltei para casa. Vim pensando na estrada no que mudaria, se pudesse dar umas voltas contrárias no tempo. Será que assim, eu poderia contar com você ao meu lado nesta pracinha?
Toca, telefone, toca!
Toda vez que passo perto do telefone, eu vacilo.
Às vezes, tenho vontade de te ligar. Às vezes até faço isso, mas depois desligo. E às vezes acho que você também faz a mesma coisa. Me liga e quando digo vários “alôs”, desliga sem dizer nada.
Estamos nos sentindo desambientados um com o outro, desacostumados. A vontade de falar existe, mas ponderamos: falar o quê? Será que o assunto não vai morrer ou se esgotar? Não quero te ligar para marcarmos qualquer coisa, só quero te ouvir, conversar um pouco e ascender a minha cabeça.
Da última vez em que nos falamos, acho que você me mandou um recado nas entrelinhas. Desde então, estou tentando decifrar esse recado da maneira que melhor me convenha, é claro.
**********
Não esqueci do dia 24. Aliás, revivi todos os dias 24 que comemoramos juntos. Quanto tempo faz, quantos anos? Liguei novamente para você. Novamente não estava. Acho que não é só coincidência, existe algum tipo de força oculta, talvez o destino, que não nos deixa falar ou encontrar. Sempre há uma barreira, um muro. Por que tudo isso?
*********
Sumiu vivo. “Casou, mudou e nem te convidou” ...
Mas já sei por onde anda. Pelo menos tenho uma idéia, ou melhor, já consegui uma pista. Não é a toa que há vários dias estou com vontade de ligar e deixo prá lá. A mudança foi agora, por esses dias. É tão recente que as pessoas estão dando informações contrárias e desconexas. Vou aguardar uma notícia, mas que parta de você me avisar. Acho que vai ser um bom teste de intenções.
Mas, com tudo isso fiquei magoada e decepcionada. Se eu quiser, em dois minutos eu descubro aonde você se escondeu, mas não quero. Vou dar um tempo e ver se me procura, me liga, manda recado, sei lá.
Nesse momento que escrevo isso, o telefone tocou. Quase morri de susto! Era engano. Pensei que poderia ser você, que ilusão!
Na verdade, acho que o engano é meu em achar que você vá me procurar para me comunicar a sua mudança ...
***************
A pior hora de suportar é o fim de tarde. É nessa hora que bate uma saudade ... Pego um disco, coloco para tocar e deixo tudo fluir ...
Fecho os olhos para curtir a música. Aos poucos, vai me subindo um calorzinho gostoso no corpo e finjo que sou desejada, que estou revivendo uma emoção alucinada.
Vindas não sei de onde, sinto mãos me tocando, como mãos devem tocar sensitivamente uma pessoa e esse fantasma acariciante me envolve em plenitude por muito tempo.
É como se eu ainda fosse aquela pessoa notada, admirada, comentada, liberada que fui um dia. Me sinto bem assim.
Ah! Que ventinho bom entrou pela janela agora! Está refrescando um pouco o rubor do meu rosto e minhas idéias, que estão quentes pelo efeito dos pensamentos.
Abro os olhos, vejo que não sai do lugar e que ainda estou aqui, no mesmo lugar, e que foi tudo mais uma ilusão o que acabou de acontecer.
Assim, me bate de novo uma tristeza, me bate desamparo e desânimo, igualmente quando comecei escutando esse disco ...
Tenho uma necessidade constante de me sentir amada, é essa a segurança de que preciso para mim. E é essa segurança que tenho a certeza que não tenho.
**********
A chuva está batendo forte hoje. Na minha insegurança, bate forte também o medo de ficar sozinha na chuva, esperando em vão.
Estou sentindo uma angústia tão grande ... Quero chorar e não consigo, acho que é falta de costume. Sempre fui forte e quando não, camuflei muito bem.
Escuto músicas que me motivam a chorar, mas só aumentam a minha inquietação. Sinto que o meu tempo também está chuvoso.
Dentro da minha memória, deixei gravado naquele cantinho secreto coisas que só eu sei. Acho que nesse lugar, acharei um lugarzinho com um pouco de sol, que me mostre uma saída. Talvez, você vá ...
**********
Daria tudo para estar por perto quando abrisse “aquela lixaiada” toda. Queria ser um mosquitinho, ou talvez qualquer coisa que passasse mais despercebido ainda, para ficar pertinho e ler junto com você. O que será que vai achar? Loucura, exagero, melado, entrega?
Amadurecimento
O seu primeiro fio de cabelo branco que vi, peguei para mim. Guardei-o no celofane do cigarro, na caixa das mil e uma coisas.
Sinto-me gratificada de estar com você ainda e poder presenciar os anos se passando, que a idade não é cruel só comigo. Quando é que eu poderia imaginar que esse dia chegaria e eu estaria aqui?
Achei a cabeça num emaranhado de dúvidas, querendo respostas. Um bom sinal de que está crescendo.
Senti um amadurecimento muito positivo, que me agradou muito. Só não sei se me fiz entender com clareza, era tudo que queria. Deu para entender os meus motivos? Só não cedi, por medo de perder. E perdê-lo hoje, além de ser um fracasso emocional muito grande, é tudo o que não quero.
Quero sim, é saber que estará sempre por perto...
Início de Semana
Que segunda feira difícil! Tudo começa de novo na segunda feira e eu não consigo esquecer do nosso fim de semana. Ficou em mim uma emoção tão forte, tão enraizada, que não será apenas um início de semana que apagará tudo.
Respiro fundo de saudade ...
Uma montanha maravilhosa foi nossa única espectadora, mais nada! E você, que me olhava fixo, quieto, sem dizer nada, ficava ali, compondo esse pedacinho do paraíso. Disse-me que não queria falar nada, só ficar calado, me curtindo. Que maneira mais gostosa de curtir uma pessoa...
Cada vez que te vejo, está ficando mais difícil de ficar longe. Meu corpo grita seu nome, em vão. Cada pedacinho, cada cantinho sente sua falta.
Fico me perguntando se as nossas reações são as mesmas, acho que não. Você tem sua vida, independente de mim. E eu tenho minha vida, dependente de você. Sinto que esta semana vai custar a passar ...
Enfio a cara no trabalho para não desviar meus pensamentos para aquela montanha, mas está difícil ... Cada vez que o telefone toca, acho que pode ser você.
Cada pessoa que passa, acho que é você que veio me fazer uma surpresa ...
Quando vou a Savassi, passo em frente a Kopenhagem e vejo na vitrine pirâmides de Nhá Benta. Me dá vontade de comprar todas. Passo pelas lojas olhando alguma coisa que identifique com você, que seja a sua cara. Estou doida prá comprar alguma coisa.
Bom, cartão eu já comprei, mas acompanhado de quê? Está difícil, porque eu quero alguma coisa realmente especial.
Hum! ... Estou aqui rindo-me do seu carro. Acho que terá que trocá-lo por um carro forte, blindado. Só desse tipo acho que não vamos destruir.
Tá vendo como anda a minha cabeça? Tudo misturado, fatos, lugares, momentos, tudo chacoalhando aqui dentro.
Como é que posso me concentrar se você não desocupa minha cabeça? Praga da minha vida!!!
E é aí que pinta a saudade ...
Quando podemos estar juntos, a sós e em muda cumplicidade, te olho assim, bem dentro dos seus olhinhos de águia. Vejo que seu amor, que já foi grande demais um dia, deixou um rastro de saudade guardado ai dentro.
Quando estamos juntos, a sós e em muda cumplicidade, sinto que só o tempo foi testemunha do quanto fomos felizes nessa louca relação. Por isso é que hoje ainda estamos juntos e preciso tanto de você.
Pudemos viver uma vida tão pura, tão bonita e tão inesperada, que no decorrer de nossa separação não encontramos nada parecido. E é aí que pinta a saudade ...
A clandestinidade não é um problema, porque desde o início já estamos acostumados à ela e nem assim deixamos de nos amar. O que nos amedronta é o que vai acontecer disso tudo ...
Você tem medo de se machucar novamente e me responsabiliza por isso. Mas não pense que só você se machucou nessa estória: olhe bem para mim hoje e veja o meu estado. A perda foi ruim para nós dois.
Você continua a ser a mesma pessoa preciosa, especial, que todo mundo tenta encontrar para si. E eu te encontrei, te perdi e estou tentando conquistar novamente.
Já passei pela parte mais difícil: derrubei os paredões que você erguei entre nós, joguei pelo chão o seu muro de auto proteção. Mas ainda resta a última porta a ser aberta: a entrega total.
Te quero do mesmo jeitinho que era antes: uma pessoa que adivinhava o que eu queria, que me cobria de mimos e carinhos. Isto é tudo o que estou querendo de você. Será que estou querendo demais?



0 Comentários:
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial