Textos do livro Retrato de corpo inteiro para editar
Ah, essa satisfação maravilhosa
que sinto ao ouvir uma música
tão comum, sem ser especial,
que poderia ter sido tocada
no exato momento de plenitude
em que passei com você.
Que alegria mais efusiva,
que vontade de sair beijando
pessoas, plantas e bichos,
e me deitar num tapete,
olhar para o teto
e ver refletidas
as imagens que passam
pela objetiva da lembrança ...
(Existe uma tela melhor para me projetar
do que o teto de um quarto?)
Vou partir hoje, pela madrugada,
pelo barco de minhas fantasias
que deriva solto por aí.
Quero me postar na proa,
sozinha,
olhar na escuridão a noite clara
de lua e estrelas.
A felicidade é tamanha
que o brilho dos meus olhos
servirá de farol
para iluminar o rumo
que o barco irá tomar.
Ah, ar que circula,
que dá voltas e cambalhotas pelo meu corpo,
me dá a sensação de que estou levitando.
E mesmo que,
neste barco de sonhos em que me encontro,
enfrentar um mar turbulento pela frente,
minha coragem
feita de realização e alegria,
estará aqui comigo para me assegurar.
Chegarei, enfim,
em terra firme.
E carregarei comigo
as medalhas e derrotas adquiridas.
Estufarei o peito,
empinarei o nariz
como um bom marujo,
e me apresentarei como voluntária
à uma nova travessia.
Certa vez,
houve um homem
que amava a chuva e o vento,
tempestade e trovão.
Chegou de mansinho,
com afagos e beijos tímidos,
ultrapassando as barreiras que encontrava pela frente.
Me tocou e à cada gesto,
minha defesa se tornada cada vez
mais cômica e inútil.
Toda a saliva da minha boca havia secado,
desacostumada que estava
de sentir vida em um outro corpo.
Deixei, então, meus fluidos
exalarem livremente por todo ambiente.
Cheiro de desejo,
cheiro de pele.
Minha cabeça rodava, uma tontura gostosa ...
Fui conduzida e submissa,
mas com muito prazer.
Me abracei à ele
com medo de que tudo não passasse
de mais um dos meus sonhos.
E, pela primeira vez,
vivi um momento como se fosse o último,
toquei em um corpo como se fosse único,
troquei sorrisos de cumplicidade,
cheguei até a desejar a morte por um momento.
E isso me bastou.
Numa cidade qualquer
da Europa Medieval,
ouço uma música ao longe.
Reconheço o som de uma flauta.
Que bonito!
Talvez, deve estar sendo tocada
por um velho mestre,
absorto em lembranças antigas.
Guiada pelo som da bela melodia,
subo e desço ruas tortuosas
e estanco em frente a uma janela.
Dentro,
existe um garoto,
parece que encantado,
tocando com leveza a flauta mágica.
Sou invadida por um deslumbramento
ao perceber que,
o garoto e a flauta mágica,
formam um só.
Ainda postada nesta janela,
sinto-me como se estivesse
num centenário bosque,
coberto por tapetes esvoaçantes
de folhas secas.
A sinfonia me abraça, me envolve.
Não existe um local mais pleno
para sentir essa melodia,
do que a minha imaginação.
Esse garoto flautista
é uma pessoa abençoada;
senão, de onde conseguiria tirar
tanta beleza,
plenitude e sensibilidade?
E o garoto toca,
de olhos fechados.
Sonha, viaja,
transportando-se à cada nota solfejada,
para o imenso mundo
de suas fantasias.
São dois.
Talvez, sejam demais.
Talvez, um só.
Um, cheira à essência de puberdade;
outro,
à barba recentemente feita.
Tenho vontade
de colocar um no colo,
pela sua fragilidade.
Sou colocada no colo,
pelo outro,
pela minha fragilidade.
Dois corpos distintos:
Um,
forte, viril, sensual.
Outro,
não tão viril, mas também sensual.
Ambos importantes,
cada qual com sua intensidade.
Um,
semanal.
Outro,
feriados.
Um,
lua.
Outro,
sol.
Preciso da lua
para sentir-me apaixonada,
deslumbrada e radiante.
Não vivo sem o sol,
porque irradia-me calor
e colore-me pele e pelos.
Existem dias nublados,
como também,
noites sem luar.
O que fazer,
nestes dias?
Estive cega, durante muito tempo,
para com a vida.
O que tinha, me bastava.
Não queria nem questionar as coisas
que tinha consciência que existiam.
Me assustavam, davam medo e vontade.
Um dia,
o mistério me cercou,
me joguei de corpo inteiro,
sem pensar se era certo, errado,
se eu iria me arrepender ou machucar.
Foi a coisa mais bonita que já me aconteceu.
Me considerava uma pessoa esclarecida,
sintonizada com a vida e acontecimentos,
mas nunca soube realmente de nada.
Agora sei o que precisava saber.
Um acontecimento tão importante assim,
não pode ser passado em brancas nuvens.
Tenho que guardar isso
para quando as horas ruins vierem,
eu poder recorrer a ele
como um prolongamento,
como se pudesse esticá-lo por muito tempo.
Olhar faceiro de criança grande.
Ah, os olhos!
Que invenção maravilhosa ...
Dois pequeninos órgãos,
que pouco espaço ocupam
e que tanto dizem.
Olhar delator,
que entrega minhas vontades mais atrevidas;
olhos suplicantes,
que pedem para que me mantenha viva.
Sei que nunca mais será como foi,
mas me bastará por um longo tempo.
Suicide-me e renasci
em cada gota de suor
que seus poros expeliam.
O asco, a repugnância, o tédio,
foram-se com meu suicídio.
Acho que estive presa
numa caverna escura e úmida durante séculos.
Um dia, alguém lutou e retirou a pedra
que há tantos anos fora colocada na entrada.
Nasci com a luz.
Cada raio que me tocava,
despertava meus músculos,
meus órgãos, minha mente e imaginação.
O útero em que vivi me alimentou,
me abrigou, eu sei,
mas era eu só comigo mesma,
sempre me desdobrando
para satisfazer-me como gente.
Isso tinha que partir de mim,
porque estive sempre só.
O útero cumpriu suas obrigações
pré-determinadas e seguiu-as à risca.
Sou semente que se debate com a terra
por um pouco de espaço para viver.
Hoje sei de tudo isso
e tanta coisa mais ...
Que bom que meus olhos egoístas permitiram
que seus eixos se virassem para dentro
da minha cabeça.
Acho que sempre tive esta sensação
de que um dia isso iria me acontecer.
Que sensação mais estranha o adeus ...
Parece que me injetaram
um balão de oxigênio
e o arrancaram de uma só vez.
Agora, aqui no avião,
vejo Salvador se afastando pouco a pouco.
Na altitude, as praias me parecem
um risquinho branco
muito bem demarcado.
Adeus, Salvador,
adeus, Bahia!
O que posso dizer-lhe
é que tentei achar um lugar especial
em meu coração para você.
Só que não nascemos para vivermos juntos,
não estamos preparados para isso.
Te falta coragem
para assumir seus erros,
para dividir sua vida com outra pessoa.
Ainda não tenho idade
para ser mãe de filho adulto.
É pena, eu tentei.
Adeus, Antonio Amado!
Que vontade de gritar bem alto
para o mundo inteiro ouvir,
que estou feliz, sou feliz!
Estou bem demais comigo mesma
e por isso que está sendo bom
ficar um tempo sozinha.
Quero dançar uma música lenta,
bem agarradinha,
daquelas em que a gente
só balança o corpo para os lados,
num abraço ritmado.
Estou serena.
Talvez, estou tendo um parto
de mim mesma para essa vida,
tão diferente da que estava vivendo.
Vai ser tão difícil para mim
estar longe disso tudo ...
Já começo a me desgastar desde agora,
sofrendo por antecipação.
s dias que me restam
estão passando rápido demais,
e à cada dia que nasce,
tento esticá-lo o máximo possível.
Quero viver maravilhosamente
cada dia que me resta,
para não ver o último.
Eu me vou, não tenho alternativa
(ou será que tenho?),
mas minha cabeça e meu coração
vão ficar aqui,
esperando pelo meu regresso.
Vou, me desvencilharei
e voltarei.
“Vou de novo estar com o desconsolo,
que cansei de conhecer.”
Perdeu-se um adulto
que há pouco deixou de ser criança
e que anda solto, por aí.
Não sei se ele foi para o norte ou para o sul,
mas não deve estar muito longe,
pois ainda sinto a sua presença.
Perdeu-se um amigo,
que deixou um imenso vazio
no pouco espaço em que pensava ocupar.
Essa perda me obriga a fazer
quase todo o tempo
uma dolorosa pesquisa no espelho,
para tentar entender
essa sensação de mal estar que ficou em mim.
Era um homem simples, criativo,
atraente, sensual.
Contemplava-me horas a fio
melancólica ao sol;
saboreava-me um beijo fiel e ciumento
de sanidade e loucura;
tateava-me com os olhos
sem esquecer nem uma curva, ao menos.
Tinha o dom mágico
de tornar os arrepios da pele
em maciez felina;
cheirava o sopro da vida
no odor do meu corpo.
Era um sonhador e eu,
sua fiel ouvinte.
Perdeu-se essa pessoa
tão bonita e especial.
Preciso muito achá-lo novamente.
Quero olhar mais vezes o seu rosto
e decorar seus traços
(pois minha memória anda me traindo),
quero roubar a essência do teu cheiro
e guardar num frasco para perfumar-me.
Perdeu-se esse lindo homem.
Recompensa-se com muito amor
a quem o achar.
Agora e de perto,
as faces das pessoas
são máscaras estranhas.
Não consigo mais me
Identificar com elas.
Estou introspectiva,
atenta aos meus próprios movimentos,
minhas reações.
Olho meu corpo como um todo.
Corpo e mente interligados,
um é o reflexo do outro.
São tantas descobertas,
que custo a crer
que dormiam esse tempo todo.
Sonho acordada sonhos lindos ...
Um corpo luminoso que me doa calor,
cada raio de luz me arrepia toda.
Um arrepio que corre o corpo
em questão de segundos.
Acordo com as frontes latentes
numa mistura de dor e prazer.
Vontade atrevida,
tenho medo que vejam em meu rosto
o reflexo dos meus pensamentos.
Sacrifico-me nas novas emoções
presa à um velho início,
mas nada foi em vão.
As coisas que um dia tive,
um dia terei de novo.
Brindemos á isso!
"Noite Feliz"
Natal!
Mais um ano corrido, mais um ano de luta,
uma noite a mais sozinha.
Natal de lembranças,
de natais anteriores,
de depressão, de vontade de sumir,
e passar esse dia fatídico e obrigatório,
no cotovelo do mundo.
Queria sumir no mundo
neste dia, em especial.
Natal ansioso,
passado praticamente a noite inteira
pendurada num telefone,
tentando esquentar esta noite
que deveria ser só alegria.
Queria ter alguém agora
de quem gostasse muito,
e passar o natal só com ele.
Sem presentes, sem bolas de natal,
nem pinheirinho de neve artificial.
Passar a virada da noite
com uma pessoa muito especial,
que amasse muito,
(porque essa noite é só amor!...).
Não um amor familiar, nem amigável.
Quero ganhar nesta noite do Papai Noel
um presente humano:
Um amor para ser vivido intensamente a dois,
sem mais ninguém.
Sempre soube que escrevo para mim mesma,
assim como sempre foi.
Hoje, agora,
em que procuro escutar os sons da solidão,
anotando mensagens sutis em um pedaço de papel,
sinto vontade de ter você por perto.
E escrevo, me descrevo, te relato.
Não tenho nem ideia
para onde enviaria estes escritos,
se haveria um carteiro tão persistente
que achasse destinatário tão fictício,
nem sei ao menos
se ainda iria querer recebê-los.
Sinto sede da água do seu corpo,
sede do seu olhar, de ver o seu sorriso.
Tenho precisão de
confidenciar meu coração,
onde você tatuou seu nome.
Por onde andarás?
Sinto uma fome a me corroer,
uma fome de presença,
de cumplicidade,
fome de mulher abandonada.
Queria estar contigo
para entreter essa fome que me seduz,
enlouquece, envenena, pulsa e fantasia.
E esqueço, assim, o que já sofri um dia.
Já soube de todos seus segredos,
hoje já não sei mais ...
Às vezes penso
se ainda dividiria comigo
seus castigos, seus arquivos
seus medos ...
Me sinto capaz, de uma nova ilusão
que também passará como tantas outras.
Prefiro viver mil ilusões a uma realidade perversa.
Talvez, o melhor será arquivar estes papéis,
no mesmo lugar em que coloquei
as coisas que não dissemos
e que não fizemos.
No fundo da gaveta da saudade...
Lembrete à uma pessoa esquecida
Amigo,
sua falta começa a bater forte em mim.
Você tem muitos problemas, angústias, dúvidas,
eu sei, mas deixe tudo de lado por um momento.
Queria chegar até você.
Desculpe se ultrapasso o meu limite
e não controlo o meu impulso,
mas quero ver o seu sorriso novamente.
Gostaria que se permitisse
em ter um pouco de fantasias.
Não se vive de sonhos,
mas não se vive de uma realidade apenas.
Não quero que continue abandonando o sonho,
pois foi aí que o seu sorriso se perdeu.
Acho que está na hora
de você me deixar te ajudar também.
Amigo, grande amigo,
em algum lugar sua cabeça pensa em mim.
Nem que seja naquele quartinho dos fundos
da sua mente.
Quero poder entrar nesse quarto,
acender a luz e abrir as janelas,
espanar a poeira e as teias de aranha,
para você poder respirar melhor.
Você tem um potencial imenso;
seu limite ainda pode ser comparável
ao fim do horizonte.
Então, não quero que se afunde
cada vez mais dentro de você mesmo.
Quero que conte de novo com meu ombro,
que tantas e tantas vezes espantou a solidão
e abrigou a sua cabeça.
Quero rir de novo
nossa gargalhada desmesurada,
quero me sentar no meio-fio
e relembrar loucura que fizemos.
Quero que você caminhe novamente ao meu lado,
e que possamos sentir de novo
a ausência de um no outro.
Acima de tudo isso e muito mais, amigo,
quero que volte a ser
aquela pessoa maravilhosa
que um dia conheci
e que anda esquecida
dentro de você mesmo.
Descobrimos a fórmula
de sermos só nós mesmos:
reais, autênticos, crianças, maduros,
enquanto podemos ser.
Vivemos esta fantasia
até sua última instância
de que tudo se resuma nisso
que criamos,
enquanto ao nosso redor
o mundo está desabando.
A espera, a expectativa,
a demora, a ausência.
Seria para nós catastrófico
a queda desse mundo fantástico
que construímos,
com muito medo de querer ficar,
de se entregar,
e não querer mais voltar;
termos que retornar a todas essas coisas
que compõem o nosso cotidiano.
Nem sei se ainda nos teremos de novo,
mas, na dúvida,
faço-de-conta
que você dorme no meu peito,
e à cada toque de minhas mãos em seus cabelos
é um alento para um sonho tranqüilo.
Ou então,
sinto aquela corrente de ar interna,
só de pensar no frio, na lua, na noite,
num cantarolar distraído
de uma música qualquer ao seu ouvido.
Você já sentiu saudade
de algo que não viveu plenamente?
Preciso,
e quero muito outro banho de lua.
Meu nariz procura sentir de novo
o cheiro adocicado do seu suor;
meus olhos querem te ver
completamente despido de temores
Quero poder deflorar seus mistérios,
fluir suas palavras,
beber suas ilusões,
acalmar todos os meus sentidos.
Me ajude a voltar ao cotidiano frio
e apagar da minha cabeça os sonhos.
Gostaria de, pelo menos mais uma vez,
sentir aquela plenitude quase terrível,
que me inspirou
uma simples noite de luar ...
Hoje vejo a lua da janela,
sei que está lá,
e tento me conformar só com isso.
Sei muito bem de sua vida
e por isso,
te sinto muito mais
do que possa imaginar.
Nas sombras da noite
e nos mistérios da madrugada
vivemo-nos como gatos vira-latas;
do lado de fora da porta
deixamos as almofadas de seda e o caviar
e preferimos trazer para dentro
somente os impulsos dos primeiros passos.
Então, nos beijamos na escuridão,
acariciamo-nos sem pressa,
despimo-nos vagarosamente,
retesamos nossos corpos,
misturamos nossos braços e pernas
com uma ternura calada
e felicidade recôndita
que assemelham-se,
mais do que nunca, ao amor.
Depois, muito tempo depois,
ficamos apenas escutando
os ruídos de nossas respirações
e a pulsação de nosso sangue,
que tentava à todo custo,
saltar para fora de nossas veias.
Registrei em suas costas,
com minhas garras afiadas,
aquele momento de exaltação.
Ao fim de tudo,
entre grunhidos e miados,
cansaço e satisfação,
deixamos nossos corpos descansarem
na paz merecida
dos guerreiros abatidos.
Roupa nova, perfume caro,
boa bebida, bons discos,
casa florida,
tudo pronto.
Era só questão de esperar.
Enquanto o tempo corria,
ia bebendo um Martini para tentar descontrair,
criando a ilusão de que as horas
passariam mais depressa.
Bebi um,
dois, três, diversos.
Fumei muito.
Cansada de esperar,
assentei à mesa
e comi o lanche que estava preparado:
pães de creme, café, bolo, queijos ...
Tudo lindo!
Brinquei de estar acompanhada
e quase servi café
para a cadeira vazia.
Cada passo de sapato na rua
eu corria para a porta,
num último ato de esperança.
Custei a acreditar que você não viria mais.
Por que tudo se repetiu?
Por que me deixei convencer de que havia mudado,
que os anos haviam passado
e que era uma outra pessoa, nova, mudada?
Acho que eu queria acreditar tanto nisso ...
Assim, nesta ilusão,
Deixei-me levar
e a esperança bateu forte de novo.
Chorei.
Chorei rios de decepção,
me afoguei no meu choro,
como não chorava há muito tempo.
Primeiro me recolhe,
me abriga e me aviva;
depois me expulsa e me recusa.
É como uma praga.
Vejo que está sugando minha vida
e te corto.
Quando acho que está morto,
revive com mais força,
vem com toda fome e sede
me matando.
Sei, com toda certeza,
que vai voltar.
Aliás, você sempre volta...
Hoje, amanhã, daqui a um século,
não importa.
Posso, como também não posso,
te receber de braços abertos.
Quero estar com você novamente,
pois a minha vontade de te magoar,
de te ferir até sangrar
é maior do que o sentimento
que insisto em alimentar.
Como uma viúva negra,
te amarei e te matarei em mim.
Serei a primeira a sugar
um pouco do teu sangue,
que na certa, vai jorrar.
Colocarei a maior pedra
que encontrar no mundo
em cima de você,
e fim!
Eu
Na cabeça, uma tontura,
no corpo, um arrepio,
na boca, um silêncio,
nos olhos, um pedido,
no coração, uma esperança,
no ouvido, um sussurro.
Nas mãos, o toque,
nos braços, o suor,
nos cabelos, o afago,
nas lembranças, a tortura.
No peito, a dor,
no ventre, uma vida.
Na vida, ainda há um futuro?
Hoje estou considerando-me uma pessoa maldita,
solitária e talvez perigosa,
que está com os pés plantados na terra
e a cabeça ligada no universo.
Carrego comigo lembranças de quando caminhava
sabendo que te encontraria
no lado deslumbrado da vida
em que me achei.
O mundo é tão irreal
e os dezembros que se passaram,
nunca mais passarão dentro de mim.
A vida é uma paixão inconcretizada.
Paixão de te ouvir por dentro da noite
e sentir que é somente meu.
Paixão de que você
seja um ser que desconheça.
Paixão de estar no mundo
e não ser livre
para fazer-me a causa e o efeito
das minhas próprias leis.
Paixão de não ser só,
pois te espero;
de te prolongar de olhos abertos
esperando que seja um temor desfeito.
E eu o queria tanto ...
Paixão de dar
e ver assombrada que tirou;
de desenhar no claro
e ver no escuro o que desenhou.
Vontade louca de estilhaçar-me,
para não deixar de perceber
nessa vida cega de silêncios,
os pontos-e-vírgulas das regras.
Paixão de sentir o ruim
sem o consolo da amargura,
fácil truque de sobrevivência.
Paixão, finalmente,
de caminhar cansada,
mas sabendo que o encontrarei
nos caminhos feitos com pedaços de vida,
que eu amo, sofro, perco e faço.
Vi seu sorriso Holywoodiano
e me olhou com um olhar morteiro.
Bigodinho da década de 30,
bem nostálgico.
Acho que é ele!
Não precisa estar usando máscara,
nem tão pouco uma capa preta.
É o meu herói, sei que é!
Tem o corpo
cheio de marcas e arranhões
como saldo dos combates vividos.
É o cavaleiro mascarado
que chegaria num cavalo branco alado
(pela janela)
e se instalaria de uma vez na minha vida.
Será meu refém,
de agora em diante,
será meu prisioneiro.
Marcarei com minhas unhas,
mais ainda as tuas costas,
em êxtase,
fazendo um jogo da velha
com tuas cicatrizes.
Herói paladino,
asseguro-lhe que não precisará mais
salvar outras donzelas em perigo.
Eu te bastarei ...
Serei tua prisão,
teu abrigo, teu paraíso.
Precisarei sempre
da força da tua espada,
para me proteger de todos os perigos.
Cavalgaremos noites e dias afora
por campos imaginários;
nos amaremos
à sombra de um frondoso carvalho,
em meio à um vasto campo
de trigos dourados.
Quero que esteja sempre presente
em minhas loucas fantasias.
Nem que não seja este herói,
nem que não tenhas cavalo branco e máscara.
Não sou donzela em perigo.
Sou uma mulher frágil,
que apoia-se em sonhos,
para sonhar acordada.
Esperarei por noites infindáveis,
no ensurdecedor silêncio da madrugada,
continuando meu sonho:
Um dia,
entrará por aquela janela
e virá para ficar.
Queria ser um sopro de ar.
Percorrer todo o seu corpo,
por dentro e por fora...
Ou talvez,
uma simples gota de suor
(com a qual você se perfuma),
para ficar colada à sua pele,
seus pelos,
seus poros.
Queria ser uma nota musical.
Martelar nos seus ouvidos
todas as canções que quis cantar
e não tive, sequer, tempo.
Queria ser um dos seus problemas
para ficar certa
de que pensa em mim.
Notícias me são bloqueadas.
Vivo com a saudade e a tristeza,
duas amigas inseparáveis.
Quem me dera,
ser uma lágrima
que seus olhos censuram,
e escorrer lentamente pelo seu rosto.
Ah, se eu pudesse ter você
por mais um instante apenas.
Houve um tempo
em que a adolescência fora machucada,
a liberdade presa,
a espontaneidade, anulada,
o sonho, pesadelo.
Houve um dia
em que o ausente não fora notado,
a distância, curta demais,
a solidão, um prêmio.
Houve uma tarde
em que um menino virou homem,
uma mulher, criança,
a mudez, palavras.
Houve um momento
em que a adolescência fora revivida,
a liberdade, livre,
a espontaneidade resgatada,
o sonho realizado.
Houve um instante
em que ficou eternizado.
Domingo à tarde.
Um dia feito para não ficar em casa.
Todos saem de suas tocas para aproveitá-lo.
As praças e ruas fervilham
de peles bronzeadas de sol domingueiro.
E eu só no apartamento.
O vento soprando na cortina de renda
faz com que as plantas balancem no mesmo ritmo.
Solidão boa, companheira.
Não sinto falta de ninguém,
não quero que o telefone toque,
não espero visitas.
Encontro-me num estado de graça.
Acendo um cigarro e vou para a janela
ver o sol e o céu azul
em harmonia com a serra.
Até os carros que passam na rodovia
me são agradáveis, não incomodam mais.
Quantos pensamentos dispersivos,
quantas horas debruçada ...
Um parapeito que apoia um pensamento,
um vidro que não veda um sofrer.
Meus braços se estendem ao longo do corpo,
começo a pensar vagarosamente ...
Tardes preguiçosas
que contêm um pó mágico:
conseguem transformar
serenidade em inquietude,
ânsia em choro,
alegria em medo.
Minha voz se cala
ante a inutilidade de gritar.
O entardecer entrando nos olhos
é um resto de nada,
é um sonho perdido.
O instante é agora.
Veja.
Já passou - e você
não me beijou.
Ficou apenas me olhando,
enquanto a nuvem
cobre a lua.
E eu,
que sou tua,
sempre tua,
cerro os olhos e penso,
fremente,
no desejo que consome a gente.
Nesse amor não resolvido
que, perdido,
vagueia,
como a lua,
enquanto a lua passa.
E eu,
que sou tua,
tão tua,
sempre tua,
olho a lua,
e vou dormir,
sem graça.
- Maria Lúcia Godoy
Te encontrei um dia
perdido nesse turbilhão de corpos e capas.
Você me pareceu mais um dos corpos
que se agita sem rosto pelas ruas.
Quando sai de manhã, em busca de vida,
começa pelo lado errado:
a primeira coisa que faz ao acordar
é vestir sua máscara,
pois em ela não é ninguém.
Arranque da face esta máscara,
arranque do peito esse rancor,
afaste de sua cabeça
todos os fracassos vividos.
Mate as decepções,
viva seus sonhos,
creia em sua vida.
Talvez assim possa começar
a achar respostas para aquelas perguntas
que te conflitam tanto.
Te experimentei e me experimentei em você.
Por isso ainda resta uma esperança.
Gostei do que vi, do que vivi,
do que presenciei,
“pois estavas nu, psíquica e fisicamente nu”,
e nem sentiu falta dessa sua camuflagem.
É dessa pessoa que estou falando, da que conheço,
não daquela em quem você se tornou.
Te vi gente, criança, homem.
Matou a todos.
E um dia, você me chamará.
Então estarei longe demais
para poder te escutar.
Quem sabe o amanhã,
traga um novo horizonte,
que despontará na janela da sua mente,
para te fazer gente,
de novo.
Coisa mais maravilhosa que aconteceu na minha vida.
Talvez pelo perigo, pela aventura,
pela expectativa,
ou talvez por toda pureza
que tem sido nossos momentos.
Entregamo-nos inteiros, de bandeja,
m ao outro
e ficamos felizes de agirmos assim.
E me vi chegando em casa
com o corpo ainda marcado
nesses nossos amaços de paixão.
Da minha pele
subia um calorzinho perfumado,
do cheiro do suor de nossos esforços.
Como poderia deixar
que a água de um simples chuveiro
tirasse todo esse frescor do meu corpo?
Deito-me agora,
na minha cama solitária,
e repasso pelo teto do quarto
toda a magia das mil e uma noites
que acabei de viver.
É cedo ainda, não se vá.
Enquanto chove lá fora
o tempo para nós está azul
e quero aproveitá-lo enquanto posso.
Tenho muito a dizer
e tanto a escutar ...
Tua presença circula pelo meu sangue
que me agita cada vez mais e mais.
Teus olhos lêem meu olhos,
como pode isso?
Teu cheiro inunda essa casa
e devassa todos os cômodos.
Como pode ir embora e me deixar só
numa casa tão perfumada?
Quando está aqui,
não tenho temores nem ansiedade.
Você chegando,
a paz entra pela mesma porta
como se fosse sua sombra.
Por isso não quero que se vá.
Antes, tenho que aprender a prolongar
sua presença e compartilhar dela em mim.
Sua fala é como um perfume que a brisa traz,
me embriaga e fica dias e dias
latejando nos meus ouvidos.
Que sensação boa!
Assim, são nas pequeninas coisas
que você me parece, a cada momento,
uma pessoa maior.
Aquele seu convite que recusei
da última vez,
não hesitarei em aceitá-lo hoje,
é a coisa que mais quero.
Até parece que está lendo meus pensamentos,
da maneira que me olha agora ...
Hoje acordei pensando em você.
Era como se o seu rosto
estivesse ao lado do meu,
no mesmo travesseiro.
A claridade do sol atravessava a janela,
penetrou em seu sorriso maroto
e trouxe a mim o teu cheiro,
seu hálito, sua presença.
Sem me prestar atenção,
apalpei-o no espaço sombrio do quarto.
Você sorria,
estendendo sua mão
para que eu a tocasse.
Estendi a minha também
como resposta à pergunta da sua
e quando vi,
estava assentada na cama,
sorrindo para o nada
e minha mão estava numa expressão de ânsia,
de vontade de alcançar a sua,
que estava muito longe dela e de mim.
Sonhei com você.
Depois de tanto tempo
sem ouvir falar seu nome,
sonhei.
As coisas que me disse me assustaram,
estou meio tonta ainda.
Me mostrou que existe uma grande diferença entre
“menina com gosto de mistério” e
“mulher com jeito de pecado”.
No fundo, tudo não passou
de uma grande e alucinada loucura.
Eu nem me conheci
de tão descontrolada que fiquei.
Meu coração pedindo,
minha cabeça negando.
Chegou de mansinho,
pulou o muro das minhas defesas,
qual um ladrão,
e quando dei por mim ...
Foi tudo muito bom,
no fundo sempre esperei por isso.
Me ajudou muito, afinal,
sonhar também é uma forma de viver.
Te sou grata
por me fazer sentir gente de novo,
de relembrar como é bom
um simples afago,
de me sentir bonita, desejada.
(Quanto tempo fazia que eu não me sentia assim?)
Isso me levou lá prá cima...
Daqui há um tempo,
repassarei tudo
pelas lentes microscópicas da lembrança
e verei o que realmente mudou.
Para que as coisas comecem a tomar um rumo,
teremos que ser mais conscientes
e não apenas sonhar, como fizemos.
Te acho ótimo também.
Adorei estar com você.
Enquanto, pelo vão desta janela,
vislumbro céu e claridade,
aspiro profundamente
o cheiro morno da noite.
E mornos são também os pensamentos...
Uma noite sozinha, melancólica,
em que ouço velhas canções de amor dos Beatles
tocando baixinho,
mas gritando alto no coração.
Hoje tento resgatar minha vida
esquecida através dos anos,
abafada em tantos momentos.
Durante manhãs, tardes e noites,
estou me recompondo.
O cheiro morno da madrugada
faz-me acreditar que um dia tudo será
somente um retrato velho e amarelado,
esquecido num móvel empoeirado qualquer.
... E o cansaço dos fracassos
e a permanência de uma esperança,
são o alento final
na vida que regurgita-se dentro de mim.
Tive um dia enfadonho.
Minha noite foi pior.
Os minutos,
durante a madrugada,
parecem-me horas milenares.
Abracei-me ao travesseiro
na expectativa de que criasse braços
e me abraçasse também.
Parecia que alguém iria chegar,
que a porta do meu quarto se abriria
e que alguém viria ficar comigo.
Deve ser por isso
que não desgrudei os olhos da porta.
Liguei o rádio
para puxar pelas boas recordações.
O silêncio do abandono
me dá ressonância nos ouvidos.
Um grilo canta só
na noite lá fora.



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